segunda-feira, 10 de julho de 2017

POESIA - MISSA DE NÁCAR - THIAGO LUCARINI



A tarde açucarada se esconde atrás
Dos lençóis avermelhados e alaranjados,

Um padre podre rege a missa de nácar
Entregando a alma do dia para a noite.

Ele está à frente, um passo a frente do amor,
O dia entrega-se aos braços da noite iniciada,

Há um pouco de temor e desespero pela escuridão,
Mas ao longe vê o brilho infindo das estrelas.

É um encontro feito em queda livre ou raiar.
Há alegria, tristeza, separação e um beijo

Pousado sempre no horizonte ao amanhecer
Ou antes, de ir se deitar, não há vergonha.

Nos deslizes constantes dos esquecidos dos instantes
Tudo isso passa despercebido ao próprio amor temporal.

POESIA - NUDEZ - THIAGO LUCARINI



Ia a árvore com mãos finas
Costurando de volta aos galhos

Suas folhas caídas
Recusando a deixar

O passado poente seguir ao húmus.
Feito uma nuvem recolhendo suas gotas

Negava-se a árvore a chover, adubar,
A estar nua e ser varal para pássaros

Esquecendo-se do canto cobertor
Que estes poderiam lhe oferecer.

POESIA - ABORTADO DAS CINZAS - THIAGO LUCARINI



Sou um abortado das cinzas
Nasci da morte de um hímen.

Comi todos os pesares sem mel,
Nunca fui de fato só prometi ida.

Sou feito de desaparecimento e abandono
Não esquecendo nunca dos velhos temporais

Antagonistas morais das minhas falas rejeitadas,
Quando, enfim, morrer, cinzas voltarei a ser.

O fogo glorioso me permitirá integridade,
A qual tive negada uma existência inteira.

POESIA - CORVOS - THIAGO LUCARINI



Corvos sobrevoam
A minha cabeça.

Talvez sejam estes excessivos
Pensamentos sobre a morte,

Esta teimosia em escrever
Poesias tristes, de somenos,

De bem menos, menos vida.
Até mesmo as palavras soam sofridas,

Cansadas das feridas, feitas de solene mistério
Para alcançarem desejos fúnebres e etéreos

Esperando tombar do papel
Para a inclusiva sepultura.

Corvos sobrevoam
A minha cabeça

Crocitando trágicos arautos
Melodia fatalista, perigos

Que viram poesia,
É sina!

POESIA - CONTÁGIO - THIAGO LUCARINI



Quase desmaiei diante do papel
E sua brancura de loucura reveladora,

Fiquei pálido, descolorido, liso
Feito o papel que encarava.

Assim minha alma ao invés
De depositar no papel meu verbo

De boa semeadura jorrada rompeu a flor da pele
Palavras de ambíguos sentidos e sensações únicas.

Desabrochei-me em flores negras,
Uma jabuticabeira ao contrário.

Virei árvore pelo contágio do papel,
Virei livro pela hemorragia criativa da alma.