quinta-feira, 21 de setembro de 2017

POESIA - FARPAS - THIAGO LUCARINI

As farpas adoram carne.
Amam nela se enfiarem, e ali, infeccionarem.

Clamam por pele macia,
Calam embaladas na dor

Daqueles que lhe cedem
Caloroso abrigo e sangue à vida.

Quietinhas e dolentes oram ao pus feito larvas
Para que não sejam extirpadas por fina agulha.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

POESIA - NOVA ROUPA - THIAGO LUCARINI

Não importa
Se o ovo, as árvores, 
A banana ou
Qualquer outra fruta
Troca a casca
Numa tentativa de melhoria
Do conteúdo.
Haverá um momento
De nudez, de vulnerabilidade,
Mas a nova roupa
Certamente será superior,
E se acaso não der certo,
Faltar comprimento, apertar,
É só voltar à pele velha 
Ou escolher estar exposto.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

POESIA - MONOTEMÁTICO - THIAGO LUCARINI

Fala da mesma coisa
Da mesma coisa fala
Falando sempre coisa mesma
Mesmíssima monotonia
Mesmerizada agonia
Morosa fala sem fuga de si
Monocórdia pobreza de alma
Coisa estagnada de domínio público
Limitada ao senso comum essencial
Fala narcisista labiríntica redundante
Mesma penitência mesma ladainha
Coisa para encher o saco dos que ouvem
Sempre a coisa mesma falada sem pausa
Pelo mesmo homem monotemático 
Sendo o mesmo chato de sempre

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

CRÔNICA - COROA FLUTUANTE - THIAGO LUCARINI

A que glória eu pertenço senão a todas e a nenhuma? Tudo é momento. Transitoriedade do estado e da ação. Posso pela manhã ser esplendor e alma e à noite rancor e destruição, assim como posso alvorecer escuro e tempestuoso e anoitecer límpidas estrelas fixas. Não importam os muros ou as janelas abertas, o caminho segue independente do atalho ou da árdua escalada. Cabe ao eu indivisível, porém mutável ir de alguma forma, ir além das cercas. Olho ao alto esperando halo, baixo ao chão contando os crescentes calos, vendo se estes me elevam à flutuante coroa almejada. Corro do abismo sendo eu igual buraco fundo e inapagável, algumas flores na borda ainda não me fazem jardim, as palavras vão fluindo, são corvos sem pouso escorrendo na vã tentativa de saciar a fome do imperativo vazio que de mim se origina. Sublime negativo, aqui na minha prisão de utopia, qualquer pecado é esperado e toda santidade é vaidade, e nesta dicotomia de exposição expressiva: entre o corte da agonia do espelho e a distorcida estética interna dos meus prazeres inefáveis, busco auréola, glória única, sem ferrugem ou marcas dos dedos gordurosos da morte e, sobretudo, sem fluidez no tempo.

domingo, 17 de setembro de 2017

POESIA - DELIRIUM - THIAGO LUCARINI

Imperdoável é o coração que não ama,
Pois no amor tudo se renova.
O amor vivifica até mesmo 
A mais cansada das almas. 
Quero meu fadário de amor irrevogável.
Porta do Céu, graxa do Paraíso,
Amantes eternos embebidos
No delírio febril e cativo
Do rio vermelho das chamas
Que aquecem o coração imortal
Dos apaixonados em conjunção.
Querido amor verdadeiro
Vamos fazer um acordo 
Cedo o meu coração para habitá-lo
E em troca, desejo toda a felicidade
Que puder me conceder.

sábado, 16 de setembro de 2017

POESIA - LÍQUIDO REATIVO - THIAGO LUCARINI

Define-se líquido “instável” ou “líquido reativo”,
quando um líquido na sua forma pura, comercial,
como é produzido ou transportado, se polimerize
se decomponha ou se condense, violentamente,
sob condições de choque, pressão ou temperatura.
Norma Regulamentadora 20 – NR 20

Sou líquido instável, reativo
Torno-me autorreativo
Em condições de choques
Pressão ou multidões.
Preciso de inércia, raízes,
Correntes, concreto.
Não devo correr o risco
De atrito, não sei quantos
Pedaços eu serei se explodir
Ou se me reunirei sem trincados.
Sou napalm em contenção.
Por isso, covarde, permaneço
Na condição química
De estável, imóvel, morto.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

POESIA - FILHO DA MUDEZ - THIAGO LUCARINI

As palavras me calam
E no meu silêncio digo
O que é preciso sem ser.
Quando falo nada é necessário,
Minha boca é peça decorativa,
O que falo é ar sem consistência.
Vivo naquilo que está escrito,
O escrito é terra, matéria,
Solo que habito em raízes
Sou um filho da mudez.