terça-feira, 21 de novembro de 2017

POESIA - PRIMEIRA LÁPIDE - THIAGO LUCARINI

Calei-me tantas vezes
Na noite pueril do meu coração
Que perdi todas as palavras de mim
Estas nada significam no leito morno do dia
Eram pedras imóveis, sem gosto, inanimadas,
Sem sopro, sem vida, um conjunto de nada mais.
Eram filhas da mudez, do despropósito de um ideal
Soterrado em apagamento e diminuição.
As palavras foram à primeira coisa essencial
Que morreu em mim, sendo a língua,
Igualmente minha primeira lápide metafórica. 

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

POESIA - CORAÇÃO DO DIA - THIAGO LUCARINI

Sangra o mês
Como quem sofreu
Ferida mortal.
É tempo de cair
E ir esgotando-se
Pelas marcas abertas
No seio do céu,
Negras, pesadas,
De sangue cristalino,
Límpido, a transferir
Vida aos terrenos vampiros
Sem mística ou noite
Sedentos de sede
No coração do dia
E cansados do período
Do céu curado. 

domingo, 19 de novembro de 2017

POESIA - INFINITO AMOR - THIAGO LUCARINI

Vem das montanhas altíssimas
Vales de ouros e prados de prata
Vem na bruma da manhã
Nas gotas de orvalho amanhecido.

— Nada é imune a ele: infinito, distinto amor —

Chega no aroma do café passado
Da comida preferida, da casa natal.
Vem a galopes em cavalos de fogo
Nas mãos de Deus e no coração humano.

— Nada é imune a ele: infinito, distinto amor —

Ele acaricia as pétalas das rosas, pérolas
O ciciar dos insetos, eternos, ó vida.
Saiu o gênio da garrafa, encantado
Poderoso, a fiar e governar, ó vida.

— Nada é imune a ele: infinito, distinto amor —

Imortal, essência de tudo:
Terra, fogo, ar e água, menino, velho, sábio
Combustão da alma, força de cada dia
Alegria divina, realização humana.

— Nada é imune a ele: infinito, distinto amor —

Cascata marfim de estrelas brilhantes despenca do céu da boca
O coração embebeda-se pleno, irradiado de luz e prazer
Do infinito amor, avalanche, a correr, feito rio
Banhando sonhos, humanos, a vida e Deus.

— Nada é imune a ele: infinito, distinto amor —

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

POESIA - FILHA DO SEU PRÓPRIO EU - THIAGO LUCARINI

O que chove de mim
Não chove de você
E certamente não chove de outros.
Cada nuvem plantada sobre o pescoço
É única, nem suas águas nem a queda são iguais.
Cada chuva é filha do seu próprio eu.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

POESIA - PÁLIDO HALO DE ÚLTIMA INSTÂNCIA - THIAGO LUCARINI

Invejo os mortos
Ali no caixão deitados
Tão pálidos e serenos
Sem culpa ou remorso.
Deixaram a vida
Não devendo nada a ela.
Perante a morte são eternos
Sem lágrimas sem dor
Pois tudo isso ficou aos vivos.
Nenhum morto é mau
Nenhum morto é bom
Nenhum morto é neutro.

Os mortos nada dizem
Nada condenam
Nada pedem.
Ah, os mortos vestidos de cova
São belos e enigmáticos
Coroa de flores
Pálido halo de última instância
Em breve auréola posta.

O morto no fundo de sua boca muda
Sorri, uma vez que, para ele
Não há mais tristeza
Somente a alegria da eternidade
Iniciada no cerrar dos olhos.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

POESIA - CEDER BILATERAL - THIAGO LUCARINI

Ceder é uma via de mão dupla.
Quando apenas um lado cede
Trata-se de estupidez, medo ou cega dependência.
Ceder deve ser um ato em benefício de dois ou mais,
Porém uma ação unilateral é tão somente negativa.
Ceder para calar não é ceder, é trégua
Ceder para evitar brigar não é ceder, é desistência
Ceder sonhos pessoais não é ceder, é morte do eu
Ceder só ao outro não é ceder, é burrice.
Ceder é para crescimento, nunca redução
Ceder é dividir o pão para matar a fome
É compartilhar a água para saciar a sede
É tornar tangíveis sonhos mútuos e íntimos
É somar as costas no carregar do peso do mundo
É doar o tempo mesmo nas distâncias e dores
É ramificar o amor para compor um jardim mais bonito.
Não há jardim que resista a poda coercitiva e abusiva
Ou flor que permaneça forte ante a seca da reciprocidade.
O vulgo “amor” que isola é cárcere
Ceder aqui é crime contra si
E com pena de solidão perpétua.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

POESIA - CONTEMPLAÇÃO DA DESGRAÇA - THIAGO LUCARINI

A contemplação da desgraça
Sobre o mundo é a tragédia
Nas pontas enferrujadas do tridente.
As lágrimas gritam espremidas
No sumo sacro do calvário.
Beber do milagre é tão somente
Para os fervorosos escolhidos
Achados entre orações e espinhos
Aos outros resta morte e ferro quente.