segunda-feira, 21 de agosto de 2017

CRÔNICA - AUTOPOIESE - THIAGO LUCARINI

De que nos servem estrelas tão distantes e indiferentes com seu tênue brilho de autogênese, sua lição de autoconsumo sem dependência ou se importar com o alheio faminto e colossal? De que serve toda esta potestade criacionista e viral ao cosmos se não podemos tocá-la, almejá-la, só invejá-la ou admirá-la com a certeza da nossa incapacidade de ser brilho da mesma magnitude?  Será nossa pequenez parasitária insulto certeiro à grandiosidade das luminosidades eternas sob a falha ótica humana? De que nos servem estrelas tão fixas ao seu papel de parede universal? Não seriam os vaga-lumes donos de maior humildade? De que servem estes noturnos guias silenciosos se na hora de maior precisão ignoram a oferta de ajuda ao apagarem os olhos? O quê será dos corações ao alto, dos postes de iluminação, dos próprios vaga-lumes nesta dança do carnal e artificial ante a inefável promessa de eternidade que sussurram as estrelas das altitudes intocáveis? Como detectar sua mentira de brilho quando já têm morte cumprida e somente sua luz é vista? Quando me dirão que mesmo me lustrando diariamente não posso me dar semelhante brilho? Quando caíram em ira sobre a cabeça daqueles, que como eu, em sua escuridade, ousam desafiá-las?

domingo, 20 de agosto de 2017

CRÔNICA - A FÔRMA DO ÓDIO - THIAGO LUCARINI

Homens usam avessamente a religião para nos dizer que não somos dignos do amor de Deus, a mídia diz que não somos dignos de sermos nós mesmos dentro da verdade individual que somos, a sociedade nos diz que não somos dignos sem termos abundante dinheiro, a família diz que não somos dignos se não nos enquadramos na sua ideologia representacional. Com todo este negativo sistema de crenças fomentado diariamente será mesmo tão fácil assim nos amar enquanto pessoa única? O ódio gratuito e autoaversão são sementes de simples manejo e cuidado, seu cultivo demanda pouco esforço e a colheita gerada é farta. Homens autoproclamados sábios maiores nos ensinam a arte de nos odiar, o gosto pelo desprezo próprio e indignidade, e desta forma, espalhamos inconscientemente um ideal irreal a ser seguido, uma vez que, almas fragilizadas necessitam de suporte e alguém que intencionalmente o ofereça a custo razoável seja monetário ou obediência cega. Esta é uma administração não velada, porém totalmente disfarçada com boa intencionalidade, tudo grita: Odeie a si! Odeie a si! Ao nos abominar automaticamente nos guiamos em cabresto em busca de espelhamento do melhor massificado e da salvação padrão imposta. Bom remédio nós teríamos ao nos darmos autossatisfação forjada em densa alma, tal sentimento, seria veneno para qualquer empreendimento facilitador da dor que vende aceitação mediante o cumprimento das expectativas determinadas em fôrmas. Hoje mais maduro, ainda questiono: Me odeio? E a resposta vinda num negro hino faz tremer os ossos sedimentados nesta velha carne, pois invariavelmente me reconheço como o produto final esperado pelo ditador mercado de condicionado acolhimento dos iguais.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

CRÔNICA - PORTA-RETRATO - THIAGO LUCARINI

A foto no porta-retrato exposta a vista é uma verdade fossilizada pela pressão de camadas de antiga alegria, não que hoje ela seja uma completa mentira, porém, certamente, não é mais autêntica ao tempo presente, pois se trata de um pedaço inexpressivo do passado estagnado, e este é muitas vezes confuso e inexato devido à subjetividade do eu corrente em transição. A foto estática além da moldura também está presa as grades das horas em que foi tirada e há tanto idas, luta a imagem sob a redoma do agora para se dar ilusória continuidade, livrar-se do cristal remanescente que é, e nesta movimentação imperceptível vai encruando, desbotando, amarelando, perdendo o viço da verdade que jurou manter, do interno desejo de seguir inalterada a um futuro que não pertence. A foto é fóssil para posteridade, uma relíquia, quimera fria que jamais dialogará com a realidade quente a frente de si.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

CRÔNICA - GELEIRA - THIAGO LUCARINI


Fui me congelando das extremidades para dentro, estive esfriando todo este tempo, desprendido e sem âncora fiquei à deriva neste mar de gente indiferente e glacial indo cada vez mais rumo a um pólo de radicalismo. Meu perene castigo é não me afundar e achar abrigo a sete palmos de águas calmas, ser parte de um divertido recife de coral. Sou sem sol ou solo obrigado a ver tudo passar num cinza céu de vagas promessas líquidas, estão elas suspensas do suspenso eu. Sinto meu corpo solidificar aos poucos empedrar as juntas, talhar o sangue, resfriar orações, petrificar a linha de um possível sorriso. Pensamentos em ventania de inverno equóreo espalham o frio na tentativa de branquear negras soluções e um triste coração. Minha alma trivial, enfim, acha identidade em compacta massa de solidão soterrada sob camadas de gelo, resta uma pequena e quase invisível centelha de uma lembrança distante na esperança de degelo da densa geleira que me tornei.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

CRÔNICA - A RAPOSA E O BEIJA-FLOR - THIAGO LUCARINI

A raposa pôs na cabeça que iria devorar o beija-flor, pois concluiu que suas cores e agilidade eram insultos insuportáveis à sua esperteza monocromática e seu império de ossos velhos. Nunca outro animal da fauna despertou-lhe tamanho incômodo e desprazer, o passarinho de minúsculas afeições mimava as flores banais de frutos desvalorizados no seu mercado de morte com lambidas tímidas e indecentes, ia ele deslizando pelas correntes de vento feito um alguém pertencente ao maior sobrenatural, invejava-o pela leveza e descompromisso com o sangue e a tragédia, e por ela ter em suas patas raízes fixas no solo diário do martírio, longe da graça de alimentar-se sem sujeira. Observou, tramou planos, ataques, medidas de abate da ave, deduziu que de uma forma ou de outra encurralaria e feriria de fim o pássaro desatento. Por outro lado, o beija-flor, além de qualquer suspeita permanecia brincando entre a natureza a que pertencia indo de composição a composição na busca do melhor doce das almas desabrochadas sem perceber grandes olhos sedentos e famintos atrás dele, dos seus passos de voo. Na sua inocência, totalmente despercebido continuou seu trabalho de mansidão. A raposa de fininho, sorrateira como a serpente da tentação foi se aproximando usando o silêncio do bote a seu favor, quando o beija-flor estava na mira exata pulou sobre ele. A ave envolvida na sua missão de beijar as flores, simplesmente, mudou de boca perfumada, como estavam à beira de um desfiladeiro, a raposa passou direto, reto, caindo precipício abaixo, fato este, que o beija-flor jamais se deu conta. Fica a imprecisão de que a mão do destino, a sorte ou o Salvador zelam pelos desavisados e que a cobiça do mal é queda certeira além de qualquer esperteza.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

CRÔNICA - APRISIONAMENTO - THIAGO LUCARINI

A beleza é prisão, pois reside atrás da retina, debaixo do toque, além do tímpano, nunca está livre ao acesso direto, por isso, define ela com grades tudo aquilo que é seu, seus filhos de estética e precisão exatas moram na contenção, na restrição para não se misturarem ao feio comum ou ao inexato mediano. Junto à ditadora do belo imbuímos às coisas de aprisionamento e harmonia, mania de avesso deus. Damos gaiola ao pássaro, ordem aos jardins, vasos às flores cortadas, romance às bestas, ódio ao fim, retas às construções, moldura ao quadro, métrica às palavras, demarcação à imaginação, bordas ao papel, jaula aos animais, limites precisos às curvas do corpo. Tudo está delimitado para a beleza e nós sob suas asas. E para tudo o que é privado de mínimo prazer há a ausência de vontade, de certa felicidade a mais. Estamos fixos numa invisível teia, detidos atrás das grades dos sentidos impostos pelas rígidas coordenadas da irredutível padronizadora, somos duros aprisionados a frágeis conceitos.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

CRÔNICA - BANQUETE - THIAGO LUCARINI

Aprendi a negar-me, a não me dispor totalmente à mesa, escolho as partes que sirvo de mim, não é um egoísmo completo, apenas seleciono o que posso dar deixando os pedaços mais nobres aos santos que merecem, e aqueles não tão bons aos cães raivosos ou mendicantes. Não me doo por vã vaidade ou falso sacrifício. Poli-me no cardápio diário, posto a serventia, porém não ao paladar de todos, posso fartar tantos com migalhas, dar-me à prova com aperitivos de insidiosa intenção, quando não, causo ânsia e vômito. Uma vez ofereci-me por inteiro e abusaram de mim, fizeram-me sobras e a fome continuou além dos restos da ultrajada refeição que fui. Mofei, azedei na alegria oportunista de fungos ao sol, chorei meus talheres, enchi copos de ansiedade e engoli o amargo dos pratos vazios de emoção sem me livrar dos rastros de sobriedade. Foi difícil me reviver, me requentar em novo alimento vistoso. Hoje, ainda cedo banquetes de mim, deste eu renovado, contudo, os convidados são selecionados e suas necessidades jamais superarão, outra vez, as minhas, pois, enfim, nego-me, e facilmente de saciedade passo a ser implacável fome.

domingo, 13 de agosto de 2017

CRÔNICA - ANZOL DE TODOS - THIAGO LUCARINI

Tenho um sonho de trevas feito o soluço de um peixe sufocado por suas bolhas de sensível isolamento, quando fecho os olhos tudo é escuro, não temo, pois sempre tive algo de preto, escamas inseparáveis, imbricadas de noite, de subestimado e inferiorizado mesmo quando senhor de algo brilhante no firmamento de sorrisos amanhecidos em reflexos sobre a água. Fui feito desde a raiz de breu e de me acender dentro disto por pouco e de ascender por menos ainda, tive poucas estrelas por contas no céu rotineiro, talvez, por isso, seja-me tão fácil iluminar-me do suspeito sombrio das correntezas. Aprendi a entrever pelas sombras, pela penumbra dos olhos sem pálpebras, achar significado além da suspensão, do afiado fio da faca que anseia abri-me a barriga lisa. Daquilo que me limitaram, a saber, pela tela do aquário. Ignoro o anzol de todos não sendo acessível refeição, fujo das claras redes de pesca e contenção dos ingênuos cardumes indefesos. Essencialmente, prefiro ser este alguém atípico da escuridão, não a escuridão do mal, mas o negrume calmo da noite para descanso, tinta de caneta, carvão do lápis, o negro esclarecedor de um contrário fósforo no infinito. A minha escuridade assim como a do universo, é particularidade, potestade original, é parte primeva e estrutural da nossa noturna gênese de eternidades e silêncios, que criam mundos e estrelas apenas por diversão.

sábado, 12 de agosto de 2017

POESIA - ROSTO - THIAGO LUCARINI

O rosto
Sem reconhecimento

Pendurado
Sobre o pescoço

É adorno
Um quadro

Abstrato
De pouca

Interpretação
Sem relação

Com o resto
Do conjunto

É peça, vazia obra
Para guilhotina.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

POESIA - O QUE O MORTO CARREGA? - THIAGO LUCARINI

O que o morto carrega?
Carrega o morto vários pesos
Além da própria morte estabelecida.

Começa levando a ferida aberta
Naqueles que ficam, depois se coadunam 
As lágrimas, resquícios de velhas alegrias

Talhadas no sorriso do tempo de bom humor.
Soma-se a roupa de fina alfaiataria, o caixão,
As rosas, a terra, a lápide batida, o corpo deixado.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

POESIA - ILHA PARA DESEMBARQUE - THIAGO LUCARINI

Ali sentada de costas
Sequer sua existência

Percebe minha presença
Observadora e fascinada.

À distância velada, ela é deusa
Sob um halo de luz cálida embebida

De sonhos nítidos e tangíveis.
Ops! Ela me viu. Deus encontrando 

Sua passiva criatura. Um sorriso se abre
Em sua face, ela se levanta da cadeira 

Feito um navio que zarpa do seu cais
E vem à ilha que sou para desembarque.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

CRÔNICA - O TOM DE ABANDONO DO SALVADOR - THIAGO LUCARINI

Muitos tentaram me salvar, ser um cristo minúsculo de sentido indefinido para esta face cansada, incluindo a própria poesia messiânica e canibal, porém o papel branco e vulgar, alvo como o raiar do dia também me será sepultura em longo prazo, pois este é uma incógnita de enfeitada alegoria e duvidosa estética. Fui me decompondo no decorrer de horas duras e violáveis, na súplica do papel, na sua sede compulsiva de me ter e de eu me confessar desertor da banalidade mesmo eu não o sendo de todo, tudo se revela ao sol, tal qual, aqui nestas linhas sou fútil figurado. Este é e sempre será o nosso segredo mais proibido, longe do pecado capital, mas de total sublimação, com um quê absoluto de imoral, todavia, jamais profano ou trivial. O papel é meus pés e a poesia o tronco da vida, uma solução barata e eficaz, uma espécie de melhor veneno contrário para ser apreciado aos poucos. Deixo nele, parcelas de mentiras aderidas, verdades convictas de uma alma ordinária originária do carvão. Sei que em algum tempo desconhecido o papel me abandonará, descolará de um eu descolorido para decolagem, terei assim, meus pés cortados, e no tom de abandono do Salvador, estes seguirão para proselitismo próprio, falarão de alguém a quem um dia pertenceram, mas, que, naquela realidade distante e profética são maiores que qualquer objeção avessa do meu eu condenado ao limiar do batente do passado também chamado de lápide ou página.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

POESIA - OCEANOS DE MIM - THIAGO LUCARINI

Cada lágrima 
Que do alto cai 
É um oceano 
Que se vai 
Desidratando 
Minha alma. 
São águas 
Estas 
Que apesar 
De marejarem 
O horizonte 
Não formam 
Belos jardins. 
É chuva estéril, 
Corrompida 
Por cacos 
Equóreos, 
Distópicos, 
Rios internos 
Que foram 
Se acumulando 
Em minúsculos 
Oceanos de mim.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

POESIA - ANJOS NA CHUVA - THIAGO LUCARINI

No meio da chuva entediante
Anjos lavam suas asas embaçadas 

Das falsas orações impregnadas. 
Querem banhar-se na utopia do arco-íris 

E beber das suas cores de ilusão reflexiva. 
Anseiam novo prisma, livres de amarras. 

Eu os vejo sob as águas chuvosas, 
Eles não me percebem, uma vez que, 

Meu silêncio falho, ateu e modesto 
Apenas gera a chuva, na qual, banham. 

domingo, 6 de agosto de 2017

POESIA - UMA AFRODITE MASCULINA - THIAGO LUCARINI

Das rotineiras espumas das ondas, 
Entre areia, algas e conchas de nácar 

Surgiu uma tenra Afrodite masculina
Para ferir aos brutos a sensível retina. 

Por que não? À livre imaginação 
Tudo se permite nada desiste

Tudo persiste além do incômodo. 
Saído do equóreo mar deitou-se

Sobre os escombros da areia 
Parte do seu velho útero e lar

E esperou pelo amor a secar-se
Sob o sol daquele antigo limiar. 

Passaram-se dias, noites, tempo, porém 
Taxado pelo nascimento de plágio e gênero 

Negaram-lhe as criaturas, o amor, 
Fora do Paraíso prometido voltou

Esquecido ás ondas, seu Éden salgado e se desfez.
Regressou ao pó em suspensão, do qual, originou-se.

POESIA - PARA IR ALÉM - THIAGO LUCARINI

O horizonte
É precipício para o novo,

É queda
Para descoberta,

É a abertura
Da boca do céu

Para línguas, histórias
E estrelas desconhecidas,

É a guilhotina
Para velhas correntes.

O horizonte
Borda da vida

É azul flor
Em perpétuo desabrochar,

É sepultura limiar
Para os que ficam,

É só o início
De uma jornada

Tão profunda
Quanto à capacidade

De os olhos e dos pés
De enxergar e ir além.

CRÔNICA: PARTE DE MIM NÃO PRESTA - THIAGO LUCARINI

Uma parte de mim não presta, pois tem pensamentos sujos e oblíquos, esta é a metade em elipse deste eu, tragicamente barulhenta, problemática, vulgar, obscena, ácida, de orações duvidosas, que fala mal, se contradiz, pragueja e amaldiçoa, por vezes é preconceituosa, cheia de barreiras, palavras tortas, asneiras e loucuras. Deformada trata-se de uma flor malcheirosa, de sentidos e sensações desagradáveis. Sou aquele que mais sofre com seu odor de asco e ultraje, é flor imortal, minha Medusa cultivada, enquanto eu vivo. De combate diário, rego-a com bons adubos de líquida esperança, há dias em que o fedor diminui, porém há dias insuportáveis de pura carniça, tais situações dependem, obviamente, da qualidade da terra do pensamento, do seu estágio de decomposição ou salvação, naquele período. Abutres negativos fazem-me cerco, espreita. Uma parte de mim não presta, é fato, e não se compensa esse déficit com o bom perfume de outras retidões imprecisas a ponto de tornar tudo inodoro, neutro. Travo batalha cotidiana e ferrenha, lutas invisíveis, contudo, de dantesco desgaste que vão pendendo a balança do meu e de outros narizes ao redor. Sempre haverá dias em que cheiro mais ou menos bem e outros em que estarei horrivelmente e miseravelmente podre ao ponto de compor um funesto jardim de pedra.

terça-feira, 25 de julho de 2017

POESIA - A GRAÇA DO REI - THIAGO LUCARINI



O dia passa.
Quem é o rei das horas?
Das facas? Da graça? Do meu coração partido?

Que coroa tenho eu? Que pedaço de dádiva?
Como afiar meus dentes de enfeitado leão e rugir?
Como colar as feridas da guerra sem provocar

Uma dor imensamente maior ao filhote que sou?
Tenho um trono vazio, uma sarjeta preenchida,
Desgraça adquirida e uma faca para corte final.

Sou rei escravo do povo
Sou rei sem carne só osso
Sou rei deposto por mim antes de outro.

POESIA - O BERÇO DE UM ABORTADO - THIAGO LUCARINI



O bendito berço primevo
Não sustentou teu fruto.

O berço
De um abortado
(espontâneo)

É vida não cumprida
É papel em branco

Sem florescida alegria.
O berço vazio carrega

O buraco feito no abraço,
No sorriso e nas almas deixadas.

O berço
De um abortado
(espontâneo)

Ali parado é duas vezes
Peso morto somado à ausência,

É o caixão aberto das lágrimas, é lápide
Até o dia da chegada de nova semente.

POESIA - ESPELHO INVERSO, DISTORÇÃO - THIAGO LUCARINI



sou possivelmente
uma coisa onde o tempo
deu defeito.
Ferreira Gullar

Neste barbear repetitivo, encaro
O que quero esquecido.

Imagem exposta, vista, à vista
Quando a quero esquecida.

Pois ela não mostra, no reflexo
O que de fato desejo: ser outro.

Vejo apenas distorção
Um corpo falho e velho.

Há cabelos demais em lugares desnecessários,
Pouco cabelo onde realmente anseio.

Olhos muito castanhos
Faltam-lhe um pouco de verde ou azul.

Barriga grande, corpo desproporcional
Incômodo, desengonçado, um templo desmoronando.

Nada salva, nada!
Tão desgostoso a vida inteira.

Nunca gostei deste reflexo torto
Desde a infância primaveril, nunca me achei ali.

E quanto mais o tempo passa
Mais distorcido fico, meu olho é quebrado.

Um caco humano, farrapo
Refletido por inteiro numa lápide laminada.

Nunca me amei, sempre odiei o espelho
Somos inimigos, um fardo um ao outro.

Toleramos nossos horrores mútuos, cheios de asco
Esperando ver, qual de nós, quebrará primeiro seus ossos.

E eu, terrivelmente sei quem será. Ali, no espelho
Só a lágrima distorcida é verdadeira, e de fato, minha.