sexta-feira, 20 de outubro de 2017

POESIA - BARBITÚRICO - THIAGO LUCARINI

Consistente quero eu
Um sonho barbitúrico.
Achar-me tranquilo
Na desfeitura de uma nuvem
Ser precipitação eminente
Descansar na queda de cada pingo
E nos seus ossos líquidos
Achar boa sustentação, asas,
Melhor maneira de seguir
Sobre as pedras da vida
Fluir sobre a insensatez sólida
Encontrar aceitação na secura das rochas
Ser feliz sem forma ou regra definida
Ir além da monocromia de certos arco-íris
E após cansar da liquidez, evaporar-me
E refazer todo o ciclo primitivo de mim:
Pingo-comprimido, comprimido-pingo.
Eterno movimento de fuga. 

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

POESIA - BRILHO AMPUTADO - THIAGO LUCARINI

Feito a parte
Amputada
De uma estrela
Que morreu,
Seria o brilho
Fantasma residual
No leito líquido
Do infinito?
Seria ele a prova
Que um pedaço
Da alma brilhante
Sempre irá ser
Mais forte que o fim?

POESIA - BOTÃO DISTORCIDO - THIAGO LUCARINI

Sou flor
De eterno botão.
A repressão
Deformou-me.
Não tenho
Coragem de expor
Minhas pétalas retorcidas.
Não fecundo
Escurecerei
Não darei fruto
Feio
Morrerei só.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

POESIA - O GERÚNDIO DO AGORA - THIAGO LUCARINI

A soma de todos os ontens
Mais os infinitos amanhãs
Resulta no insubstancial agora.

O agora é um tempo gerúndio.
Portanto nunca é, pois está sendo sempre
Não cabe na hora, minuto ou segundo.
Antes mesmo de o final da pronúncia
Já deixou de ser, desprendeu-se do instante.
Cada sílaba é um pedaço de período ido
E não há afirmação que sustente seu presente.
Agora é um paradoxo não existente, feito de vácuo
Apesar de passarmos sobre ele, humano-sendo. 

POESIA - FEBRE DA NOITE - THIAGO LUCARINI

A Lizandra Oliveira

Numa noite atípica
Quente como o delírio do dia
Sonhei com primaveras não tidas.
Minha casa jamais desfeita
Na permissividade do tempo.
Família, verdadeiro lar, a menina
Não deixada ao seu jardim de incertezas.
Ele também estava ali, sorrindo-me
Como se nunca tivesse ido, sem ruptura,
Doce, gentil, meu. Pegou-me
Depois a rotina de aula
Na leveza de uma esperança
E beijou-me sem partida.
Deixou-me a porta de casa
Aquela tão imaginada e feliz
Na boca o gosto, um sorriso merecido.
Fui-me. O sonho acabou. Restou
Da noite quente apenas a febre
No coração e na memória, a inveracidade
De tudo aquilo que a vida poderia ter sido.

*Poesia encomendada, vendida por um sentimento.

domingo, 15 de outubro de 2017

POESIA - CORUJA - THIAGO LUCARINI

Asas pousadas
Olhos atentos
Repicam os sinos do campanário.
A coruja na quina do telhado
Pipia seu canto aziago
Trazendo sobre mim
Algo de muito trágico.

Ó coruja sábia
Por que só sabes anunciar a morte?
Não a ensinaram que na vida há mais valor?
Por que insistes em mostrar aos homens rasos
A ciência exata e fria do fim e da sepultura?

Não te esqueças nunca
Ó agourenta e bela coruja
Que só tu podes capturar
A sapiência entre dois mundos.
Aos homens só é dada a dádiva
De obter uma sabedoria por vez.

Por isso, coruja, controle
Seu canto gnose de morte,
De sentença de dura pena.
Limite-se ao canto sem melodia
Da beira do telhado que habita
Ou bata suas asas gris para longe
E silencie os sinos surdos da igreja.
Deixe para pipiar, quando de fato,
Minha derradeira hora chegar.
Hoje, não morrerei nem serei mais sábio.
Serei apenas um humano sem anúncios.

POESIA - SINGULARIDADE DE TODA CRIATURA - THIAGO LUCARINI

Permanente ofício
Silente missão
As abelhas felinas
No zelo das rosas mansas.
Ferrões e espinhos
De alguma forma
Unem-se como escudos
Em defesa do que lhes é sagrado.
Rosas, abelhas, o ciciar da vida efêmera.
A beleza é talhada nas coisas pequenas,
Singularidade de toda criatura
Por menor que seja.

POESIA - O CHAMADO - THIAGO LUCARINI

Eu escuto...
Escuto essa voz
Vinda de longe
De perto, de dentro,
Do alto, do centro do coração.

Eu escuto...
Revoada de anjos
O ciciar das folhas de relva
O canto dos pássaros
O coaxar dos sapos
O cricrilar dos grilos
O silvar de sobreaviso das serpentes
O vibrar da alma pulsante
O chamado de Deus.

Eu escuto...
Minha voz convertida em palavras.
Escuto tudo, o mundo a minha volta,
O universo dentro de mim.

Eu escuto...
O chamado
Inexplicável da vida humana.
O pulsar deste coração.

Eu escuto...
E durmo neste embalo das eras.
Nesse ato único que é a vida.

POESIA - ASAS PISADAS - THIAGO LUCARINI

Os anjos
Quando amparam
Deitam suas asas
Sobre o caminho.
Aliviam assim
A aspereza
Das pedras,
A irregularidade
Do trajeto,
Os calos dos pés.
Asas pisadas
São sinal
Da santidade
Em ação.

sábado, 14 de outubro de 2017

CRÔNICA - SER PROFESSOR É? - THIAGO LUCARINI

Ser professor é? Esta certamente é uma pergunta complexa, a narrativa desta profissão de ensino não é óbvia e muito menos linear, portanto, para desvendar parte deste questionamento é preciso ir a limites não previstos, desconhecidos para muitos. Creio que precisamos retirar o ar de misticidade do professor, não vê-lo como um algo puro, sacrossanto em missão perene ou suicida, como muitos acreditam. Vejamos e reconheçamos o professor como um cientista da educação, um interventor político, capacitado a revelar um mundo encoberto por códigos diversos: alfabetizar, letrar, criar ou reforçar comportamentos, estabelecer limites, formar cidadãos, capacitar o homem ante a desconexão de realidade e experiência de vida, fornecer inteligência social e emocional, criticidade ao funcionamento do Estado e suas hierarquias de poder, entre outros. Reduzir este professor a uma visão assistencialista e minimalista de maternalismo e paternalismo é subjugar o profissional que estudou anos para ser um licenciado, bacharel, mestre, doutor ou Ph. D. Todo aquele que esclarece o mundo a quem o desconhece sempre terá uma aura milagrosa, porém, para o aluno isso não é totalmente errôneo. O erro consiste em todos os outros fora da sala de aula querer dar este aspecto de salvador ao docente e não reconhecer seu árduo caminho de métodos e estratégias, de estudioso, e atribuir o ensino como milagre e a aprendizagem como um pedaço do Paraíso perdido ou dar simples mérito ao ato vocacional. Aqui não há nenhuma tentativa de desvalorizar o professor, que fique claro, mas, sim, um ensaio aos devidos créditos a ser dados a estes profissionais que suam o cérebro para formar uma Nação. Um comparativo: não fazemos dos médicos deuses ou santos por salvarem vidas, estes apenas usam as ferramentas e conhecimentos adquiridos com muito esforço e dedicação. Proporcionar ao aluno a capacidade de enxergar o mundo sem barreiras, por si só não santifica o professor, uma vez que essa é sua função. Válido é a capacidade de um indivíduo devidamente orientado a mudar seu meio em escalas antes inimagináveis. O professor fornece as ferramentas, é um gerente que apresenta meios para facilitar a vida cotidiana e sua extensão, porém a obra que sairá disto é em maior parte responsabilidade daquele que manipula estes instrumentos de construção. Ser professor não é uma incógnita, não é assumir papel de pai e mãe, não é ser palhaço, não é ser místico, não é ser santo, não é ser mártir, não é ser psicólogo, não é abdicar de si em nome do outro, não é sacerdócio,  não é prover o pão que falta, não é ser super-herói. Mistificar é desmerecer a complexidade de uma ação muito maior, é tornar insignificante e incompreensível o trabalho diário em sala. O mito quando não destinado a exaltação, inutiliza e desqualifica seu personagem, pois apaga a razão.  Ser professor é ser um cientista dos víeis sociais e emocionais que travam ou alavancam a aprendizagem, e que é capaz de trabalhar sobre estes dois contextos da melhor forma possível para instruir cidadãos para a sociedade, sendo estes a partir daí capazes de questionarem o funcionamento da mesma e de intervirem.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

POESIA - ELÉTRICA REDE IDEOLÓGICA (ERI) - THIAGO LUCARINI

Marés elétricas
Transmissões ideológicas
Comportamento em rede.
Quanto tempo leva
Para a atrofia das águas?
Quanto tempo para o declínio
Do elo líquido que nos ampara?
Neural, digital, quimera,
Civilizada besta-fera 
Sem reciprocidade. 
Marés elétricas
Transmissões ideológicas
Comportamento em rede.
Quanto tempo até o homem
Deixar de ser humano?

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

POESIA - ZELADORES DA ALMA - THIAGO LUCARINI

Zelar da alma
É cuidar de um jardim
Que corre o risco
De ter escassez de adubo,
Invasão de ervas-daninhas,
Ataque de pulgões cinzentos,
Aridez da solidão do cultivo,
Roubo das flores geradas.
Aqui a audiência é o olho do diabo
E tudo tende a derrubar a conquista
Que é feita dia a dia
Zelar da alma é tarefa árdua.
A tranquilidade está em saber
Que Jesus protege as cercas
E que somente as flores
Verdadeiras e derradeiras
Ascenderão aos campos do Céu.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

POESIA - PÉS AFOGADOS - THIAGO LUCARINI

Os pés
Que se afogam
Em lama são
Penitentes do caminho.
O barro mole
Bebido entre os dedos
Causa frieiras
Agonia derradeira
Quando enfim endurece
A alma dos pés padece
Solidificam-se os passos
Caixão de barro
Cai o templo
(cova)
O tempo da palavra
(corpo)
Estagna-se a jornada
(lápide)

terça-feira, 10 de outubro de 2017

POESIA - FUGA DAS CERCAS - THIAGO LUCARINI

E assim se esvaem 
Os líquidos do meu jardim
Formando rios,
Sorrisos nos inimigos,
O vício de fugir
Das cercas de mim.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

POESIA - FIO DA VIDA - THIAGO LUCARINI

Diáfano resquício
De luz banhada de ouro
Fim de tarde
Fio da vida
As Parcas
Levantam a tesoura
Rip! Rip!
Morre o dia.

domingo, 8 de outubro de 2017

POESIA - BERÇO DE POEIRA - THIAGO LUCARINI

Clamam as auréolas
Enquanto tremem os ossos
Os sinos repicam
O som corta a alma,
O tempo, as asas.
Os passos tombam
No meio da caminhada
Estirado o corpo
É cruz, sinal do abatido
Que bebe o próprio suor
Para tentar se reerguer
E avançar além da miséria
Do berço de poeira.

sábado, 7 de outubro de 2017

POESIA - VACILO DOS PÉS - THIAGO LUCARINI

Andar a beira do abismo
É sempre um risco.
Qualquer passo em falso
Pode levar à derrocada.
A queda
             nunca é
                        diretamente
                                            intencional
Porém leva em linha reta ao fundo.
E após o vacilo dos pés distraídos
Dificilmente surgirá alguma asa
Para amparo. Depois de engolido
Pelo precipício faminto e insaciável
A solução é rogar por uma auréola.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

POESIA - ESPAÇO FERIDO - THIAGO LUCARINI

Ninguém
Absolutamente ninguém
Tem o direito
De ultrapassar
Minhas barreiras
Ferir meu espaço
Violar minhas cercas.
As flores do meu jardim
Belas ou feias
Têm acesso restrito
É preciso permissão,
Consentimento ao toque.
Qualquer ato não autorizado,
Violação espontânea e gratuita
É clara agressão, ofensa 
A integridade santificada
Do meu espaço zelado.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

POESIA - IMPERFEIÇÃO - THIAGO LUCARINI

Cada linha escorrida
Neste rosto envelhecido 
É uma linda imperfeição
Registro do tempo ido
De quem eu fui e sou.
Cada marca é alegoria,
Enfeites de alegrias e agonias,
Rastros de rios secos, depressões
De cânions esculpidos com arte
Que foram moldando a face
Deste homem feito da mescla
De histórias de misérias e glórias

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

POESIA - AUTOFAGIA - THIAGO LUCARINI

Prestem atenção!
Ouçam!
Eles gritam
Com suas miúdas,
Mudas, miseráveis,
Maltratadas bocas
Feitas na dureza
Do seio pestilento
Da rua escura.
Prestem atenção!
Ouçam a voz,
O pedido que jamais
Pode ser dito
Por estas bocas
Desconhecidas,
Invisíveis, sem
Morada, misericórdia,
Melhores condições
E que precisam
De autofagia
Para sobreviverem
À linha de um sorriso.

POESIA - LIXO DE MIM - THIAGO LUCARINI

Estive guardando
Coisas demais
Por muito tempo
E toda esta tralha
Vem me soterrando
Ano após ano
Num efeito dominó
Penitente, intermitente.
Quanto mais tento
Livrar-me do desuso
Pernicioso mais seu peso
Empurra-me para baixo
Esmagando numa avalanche
Carmática deste lixo de mim.

POESIA - SEM UNIDADE - THIAGO LUCARINI

Neste sólido
Sem unidade
Que sou
Chover é fácil.
Cada pingo
É cópia de uma ferida
Que não se apaga de fato
Uma vez que
Toda tempestade de mim
É um ato
De glória e horror
Mesclados.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

POESIA - PÁRIA - THIAGO LUCARINI

Estou morrendo, infelizmente, não de fato
Padeço sem inferno. Triste vago.
É tanta tristeza que não me acho
Na sombra ou no traço
Perco-me fácil
Neste labirinto circular,
Irregular da vida assimétrica.
Por que sofro assim?
Intermitente suplício.
Será que sou tão mau assim?
Estes versos naufragados
Na boca e nos dedos
Só podem chegar ao papel
Pois nada posso dizer em voz alta.
Sou um morto em vida
Por isso, invejo os mortos reais
Pelo menos estes são livres
Do fado da carne e do viver em mentiras.
Sou um pária pelos cantos do mundo
Disfarçado de poeta, disfarçado de humano,
Disfarçado em gentilezas poeirentas.
As religiões não conversam comigo
Não tenho amigos nem profetas
Vago solitário, humilhado.
Sem remédio sem solução sem lágrimas.
Observo as flores, as pequenas coisas
Escrevo palavras sem significados
E divago sobre o que poderia ter sido
Neste sonho inumano do eu reflexivo.
Perdoe-me por existir tão sem sentido,
Pois um pária apagado como eu
Não pode fazer muito mais do que isso:
Inexistir existindo no vago nada de hoje.

POESIA - PALAVRAS FIADAS EM CORDÕES - THIAGO LUCARINI

Quero lhes dizer palavras doces feito mel
Para isso, preciso de lápis, uma boa mão,
Tempo para cultivo e branca folha de papel,
Só assim, fluirá de mim rica composição.

Expostas no varal do dia estão minhas poesias
Feitas das tentativas milimétricas de acertos,
E das inspirações de velhas tristezas e novas alegrias.
Componho futuros na esperança de apagar erros

Ou ao menos minimizá-los nas linhas infinitas
Que vão transbordando sentires, dizeres, flores.
Todo um mundo de significados sacros e partidas
Tantas que presenciei e que me deram dores

De saudade da ponta dos pés à cabeça.
Claro, nem tudo é tormento ou lamento,
Pois com afinco misturo tudo isso à beça
Colorindo, dando outros tons ao sofrimento.

Bebo assim novas cores, tirando o amargor
Da ponta da língua e do lápis que corre entre os dedos.
Cubro com doçura e brilho o despercebido, dou sabor
E nova palatabilidade ao intragável dos anseios e medos.

Talvez essa seja a parte mais nobre do cordel,
Destas palavras fiadas em cordões de rimas,
Limpar a vida destes males, da ignorância e do fel,
É amenizar o pavor da lixa cotidiana, aliviar as sinas

Que nos é oferecida diariamente em pratos rasos,
Enquanto a alma mergulha no profundo do ser
Esperando do Paraíso benções para os desesperados
E novo trajeto muito além de conformado padecer.

Cabe a cada um de nós lutarmos com força e coragem
Almejar ser algo a mais que o comum imposto e esperado.
Falhar é fácil, assim como julgar os outros por bobagem
Ou que avançam sem saberem do meu leito deixado

Todas as manhãs para ganhar poucas migalhas
Deste sistema de cretinos que nos ensinam a aceitação
Daquilo que está errado, cortam sem dó nossas asas
Qualquer esperança de voo ou inesperada superação.

Quantos de nós pobres por imposição
Morrem diariamente sem água, comida ou lar,
Um lugar mínimo de dignidade e salvação
Do mar apocalíptico do mau político a manipular

Toda a cadeia de vida da população?
Esquecemos que somos o leme e mais,
Que podemos nos erguer em multidão
E nos sacudir de todos estes malditos ais

Férreas condições sedimentam distópica ideia:
Mais obrigações menos direitos menos festa.
Suor, dor, suplício, regras, solidão e miséria
Sãos as tragédias que nos restam, máquina certa.  

Satisfação pelo pouco dado feito glória,
Mas que não é mais que obrigação do santo ladrão.
Marchamos a pão e circo, engolindo a mesma história
De tempos passados e que perduram e infeccionam a Nação.

Somos escravos por legado, farinha da massa
Para engrossar o caldo dos rendimentos bancários,
E temos por pagamento maldita água suja e rala
Que precariamente mata a sede, somos operários.

Aqui nestas terras tupiniquins impera a corrosão.
A maioria dos homens vive do básico institucionalizado
Para uma minoria de escória, germinada em corrupção
Lambuzar-se em bons regalos sem o ardor do fado.

Oremos à Palavra em busca de sabedoria
Façamos poesia em santa denúncia da opressão
Gritemos! Não sejamos doce e pacata mercadoria
Para sustentar esta roda torta de grata submissão.

Que o povo empoderado tenha o que lhe é de direito
Que o caminho se abra independente das más profecias.
Sejamos, sim, natos festeiros, mas também guerrilheiros de peito

Em busca de uma Pátria onde não brilhe tanta hipocrisia.

POESIA - LIQUIDEZ - THIAGO LUCARINI

Meu corpo
Tem dificuldade
Em se manter
Sólido, teima
Em ser líquido
Sem atrito, quer
Tão somente fluir
Rumo ao inimaginável.
Culpa determinada
Destes pensamentos
Imateriais, leves,
Correnteza de infinito
Que obrigam a matéria
A se comportar em semelho
A sua imparcial liquidez.

POESIA - MAÇÃ PODRE - THIAGO LUCARINI

Das cinzas
Da tragédia e da miséria 
Ergo-me feito 
Verme oportunista,
Gordo me lambuzo
Em busca de asquerosas 
Asas talhadas na lama 
Da imoralidade coaduna
A escuridão de mim.
Meu amor
É um pedaço 
De maçã podre
Jogado à sarjeta.
Fomos nos apodrecendo
Cada qual, favorecendo
O pior lado do outro.
Aqui não há flores
Somente enterros
Para saciar a fome de carne 
No final da sua evolução.

domingo, 24 de setembro de 2017

CRÔNICA - BÁRBAROS ONISCIENTES - THIAGO LUCARINI

Depois dos monotemáticos aqueles que mais me entediam são os bárbaros oniscientes, protetores de todos os saberes e aflições da humanidade, são estes, deuses terrenos feitos de dura carne sem flexibilidade, livres de qualquer erro, pois sua palavra criacionista e absoluta independe de outros fatos e circunstâncias naturais, e para todos seus discursos poderosos devem bastar. É ofensa gravíssima não crer-lhes: blasfêmia. Cansam-me estes senhores que se veem em alto pedestal sem notarem a base trincada, quase sempre mantedores da moral, avessos a qualquer opinião que não seja a sua própria dogmática, de padrões estreitos, de espelhadas reflexões rasas de si e condutas duvidosas. São falsos guias, feitos de luz artificial que se apagará diante de verdadeira escuridão. Para estas divindades autoconsagradas o desvio pertence ao alheio tão somente, uma vez que, nada nem ninguém pode ou deve macular seu caminho de santidade incontestável.  Todavia, em ferida essência, na maior parte dos casos, o altar destes santos de barro falho é oco, e toda a normatização imposta e metas definidas para o outro são objetivos que estes oniscientes definitivamente não conseguem atingir.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

POESIA - FARPAS - THIAGO LUCARINI

As farpas adoram carne.
Amam nela se enfiarem, e ali, infeccionarem.

Clamam por pele macia,
Calam embaladas na dor

Daqueles que lhe cedem
Caloroso abrigo e sangue à vida.

Quietinhas e dolentes oram ao pus feito larvas
Para que não sejam extirpadas por fina agulha.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

POESIA - NOVA ROUPA - THIAGO LUCARINI

Não importa
Se o ovo, as árvores, 
A banana ou
Qualquer outra fruta
Troca a casca
Numa tentativa de melhoria
Do conteúdo.
Haverá um momento
De nudez, de vulnerabilidade,
Mas a nova roupa
Certamente será superior,
E se acaso não der certo,
Faltar comprimento, apertar,
É só voltar à pele velha 
Ou escolher estar exposto.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

POESIA - MONOTEMÁTICO - THIAGO LUCARINI

Fala da mesma coisa
Da mesma coisa fala
Falando sempre coisa mesma
Mesmíssima monotonia
Mesmerizada agonia
Morosa fala sem fuga de si
Monocórdia pobreza de alma
Coisa estagnada de domínio público
Limitada ao senso comum essencial
Fala narcisista labiríntica redundante
Mesma penitência mesma ladainha
Coisa para encher o saco dos que ouvem
Sempre a coisa mesma falada sem pausa
Pelo mesmo homem monotemático 
Sendo o mesmo chato de sempre

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

CRÔNICA - COROA FLUTUANTE - THIAGO LUCARINI

A que glória eu pertenço senão a todas e a nenhuma? Tudo é momento. Transitoriedade do estado e da ação. Posso pela manhã ser esplendor e alma e à noite rancor e destruição, assim como posso alvorecer escuro e tempestuoso e anoitecer límpidas estrelas fixas. Não importam os muros ou as janelas abertas, o caminho segue independente do atalho ou da árdua escalada. Cabe ao eu indivisível, porém mutável ir de alguma forma, ir além das cercas. Olho ao alto esperando halo, baixo ao chão contando os crescentes calos, vendo se estes me elevam à flutuante coroa almejada. Corro do abismo sendo eu igual buraco fundo e inapagável, algumas flores na borda ainda não me fazem jardim, as palavras vão fluindo, são corvos sem pouso escorrendo na vã tentativa de saciar a fome do imperativo vazio que de mim se origina. Sublime negativo, aqui na minha prisão de utopia, qualquer pecado é esperado e toda santidade é vaidade, e nesta dicotomia de exposição expressiva: entre o corte da agonia do espelho e a distorcida estética interna dos meus prazeres inefáveis, busco auréola, glória única, sem ferrugem ou marcas dos dedos gordurosos da morte e, sobretudo, sem fluidez no tempo.

domingo, 17 de setembro de 2017

POESIA - DELIRIUM - THIAGO LUCARINI

Imperdoável é o coração que não ama,
Pois no amor tudo se renova.
O amor vivifica até mesmo 
A mais cansada das almas. 
Quero meu fadário de amor irrevogável.
Porta do Céu, graxa do Paraíso,
Amantes eternos embebidos
No delírio febril e cativo
Do rio vermelho das chamas
Que aquecem o coração imortal
Dos apaixonados em conjunção.
Querido amor verdadeiro
Vamos fazer um acordo 
Cedo o meu coração para habitá-lo
E em troca, desejo toda a felicidade
Que puder me conceder.

sábado, 16 de setembro de 2017

POESIA - LÍQUIDO REATIVO - THIAGO LUCARINI

Define-se líquido “instável” ou “líquido reativo”,
quando um líquido na sua forma pura, comercial,
como é produzido ou transportado, se polimerize
se decomponha ou se condense, violentamente,
sob condições de choque, pressão ou temperatura.
Norma Regulamentadora 20 – NR 20

Sou líquido instável, reativo
Torno-me autorreativo
Em condições de choques
Pressão ou multidões.
Preciso de inércia, raízes,
Correntes, concreto.
Não devo correr o risco
De atrito, não sei quantos
Pedaços eu serei se explodir
Ou se me reunirei sem trincados.
Sou napalm em contenção.
Por isso, covarde, permaneço
Na condição química
De estável, imóvel, morto.