segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

POESIA - CRUZ VERMELHA - THIAGO LUCARINI

Ainda é tão fácil achar-me na tristeza
É uma espécie de segunda pele, laço.
Oro às minhas velhas estrelas internas
Em busca de orientação além do sono.
Ceder ao cansaço, a desilusão, ao calar
Das palavras não é tarefa impossível.
No final do dia a alma sempre pesa
Colher flores ou sorrisos amenizam,
Porém quando fecho os olhos
Minha cruz acende em vermelho
E uma eternidade de silêncio
Grita dentro de mim:
“Descanse em paz.”

POESIA - O ÚLTIMO EU TE AMO - THIAGO LUCARINI

Diga-me o último: eu te amo
E eu irei, partirei, vagarei
Por terras sem cor nem prata ou sal
Como se tu nunca tivesses existido.
Levarei meu coração partido
E no bolso do peito, meu consolo
Ao maldito dito, meu último:
“Eu te amo.”
Quem sabe nestas terras de adeuses e ferrugem
Serenos, singulares e singelos
Finalmente eu encontre pouso
Numa boca mais gentil.

sábado, 13 de janeiro de 2018

POESIA - PULO DO NINHO - THIAGO LUCARINI

Minhas asas maduras
Não cabem mais
Dentro do passado ninho
E me expulsam
Para o verde mundo.
Impelem-me ao voo
Que por longo tempo
Neguei-me por medo.
Enormes e coloridas gritam
Pelos ventos, novos ares,
Maior morada, melhor amor.
Corajoso, pulo do ninho
Rumo ao infinito
E é-me como se eu
Sempre tivesse voado.

POESIA - IDEAL ÉBRIO - THIAGO LUCARINI

A idealização do outro
É a utopia do sonho
E o veneno da alma.
Fantasiar sobre a perfeição
Atitudinal recíproca
É um caminho ilusório
Seu fruto é pedra
Sobre a cabeça
Ferida de contrariedade.
No ideal estão contidos
Anseios, desejos, sorte,
Compensações, retribuições,
Amor e valor hiperbólicos.
Idealizar é beber sôfrego
Doze doses doces de sofrer
E arcar com uma ressaca
De sentidos descoloridos.

POESIA - COMO O CÚPIDO SOBREVIVEU? - THIAGO LUCARINI

Corresponder ao amor de alguém
Não é uma simples questão de match ou química
Não é uma pura questão de gostos compartilhados
O amor não se sujeita a tais regras, pois é absurdo.
Todo o anterior facilita, mas não determina
Muitas vezes amamos o contrário de nós, o criminal,
O mais estético, a distância do toque ou do olhar,
Afinal, o amor não é racional e tem base instintiva,
Cria insubmissa das raízes emocionais em nós.
Corresponder mutuamente é trabalho
De uma ligação maior de sentidos e sensos
É equivalência de almas em sintonia
(mesmo que não totalmente pragmática).
Visto isto, é de se esperar que sejamos negados,
Deixados à deriva, é humanamente essencial
Não aceitar todos os amores postos à nossa mesa
Uma vez que nem todo amor é capaz de saciar a fome
Sentimental que vamos construindo no velejar da vida.
A rejeição dói, contudo, nos prepara para um novo ciclo,
Um alvo sorriso, e quem sabe, correspondência proporcional. 

POESIA - VAGÃO CARREGADO - THIAGO LUCARINI

A beira da linha do trem
O homem observa atentamente
As vidas que se vão nos vagões.
Cada janela passa numa fração
Cada rosto não é mais que um borrão
Todavia um deles será eterno destino.
Uma vida inteira passa diante
Dos olhos molhados do homem.
O vento lança fora o seu chapéu,
Mas a queda verdadeira é do homem.  
Tudo não dura mais que um instante
Logo os trilhos estão vazios
Moendo o silêncio que restou
E seu coração é velho vagão
Abandonado carregado demais
Numa ferrovia de indistinto fim.

POESIA - ATRAVÉS DAS HORAS ESCURAS - THIAGO LUCARINI

No meio da noite
Só meu travesseiro sabe
Quantas lágrimas eu derramo
Em compensação a felicidade
Mantida durante o dia.
Através das horas escuras
Sou frágil, fraco, falho, humano.
A chuva que acontece lá fora
Coabita aquilo que se passa
Aqui dentro do quarto fechado.
E qualquer estrela errante ou tardia
É voto de amanhecer ou novo amor.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

POESIA - ÀS RUGAS QUE AINDA NÃO TENHO - THIAGO LUCARINI

Quando as rugas
Enfim invadirem meu rosto
Desejo que versejem
Sobre marcantes sorrisos
Beijos roubados e oferecidos
Expressões de doce amor
Sussurros sísmicos e passageiros
Olhares trocados em segredo
E algumas lágrimas de vários motivos.
Quero que minhas rugas sejam um mapa
Da alma que compus durante toda
A trajetória florida da minha vida.
Que sejam a representação fiel do que fui
E que eu encontre em cada linha talhada
O acesso aos remotos tempos felizes de ontem.  

POESIA - ESPAÇO, SILÊNCIO E AMOR - THIAGO LUCARINI

Questiono o humano em mim
Para tentar elucidar qual a dosagem certa
Entre espaço, silêncio e amor.
Como não fazer do espaço: distância,
Do silêncio: morte e do amor: ódio.
Qual é o domínio comum entre duas almas?
E o que distingue a tangência do outro
Mesmo quando envoltos em promissor amor?
São três simples elementos de convívio
Que facilmente podem ser colher de mel
Ou amargo fel de envenenamento rápido.
Como identificar a que parte do estranho eu não pertenço
E saber valorizar, respeitar essa particularidade
Para não me dissolver a medida do reflexo
Tornando-me insubstancial e desfavorável.
Espero ser capaz de fazer do espaço: propriedade,
Do silêncio: reflexão contínua e do amor:
Alicerce de poder a todo cultivo e estrutura.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

POESIA - CERCAS E REDOMA - THIAGO LUCARINI

Construí por tempo demais
Cercas perfeitamente brancas
E uma redoma altíssima
Ao redor do frágil de mim.
Assim pensei ser fortaleza
A prova de falhas e de amores.
Só que o tiro saiu pela culatra
Minhas cercas e redoma esteticamente
Erguidas e estéreis mantinham
Tudo do lado de fora, sonhos,
Inclusive a promessa de vida.
Quando, enfim, me dei conta
Da atrocidade cometida
Que defesa absoluta é solidão
Comecei a carear minhas cercas,
Trincar e abalar a redoma. Convidei
Pragas e amores, chuva e vento.
Beijei a variabilidade dos dias
Fiz-me mais forte na instabilidade
E descobri o valor do sol sobre a face
Exposta no agridoce do tempo e sentimentos.

POESIA - EU ESTOU AQUI - THIAGO LUCARINI

Eu estou aqui.
Estou pela primeira vez
Em mim.
Não há prêmio maior.
Um joelho ralado,
Uma lágrima tombada,
Uma cama vazia
Tudo parece menor.
Tenho a sorte do jardim
Creio que estando em mim
Cresci de um jeito que não percebi.
Eu estou aqui
Dono da minha alma,
Caminhos e palavras.
Eu estou aqui
Pertencente ao instante.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

POESIA - COROA CAÍDA - THIAGO LUCARINI

Segui o caminho da vida.
Durante a jornada
Machuquei meus pés
Eles encheram-se de bolhas,
Calos e cortes
Um anjo — eu — caiu do céu,
E perdeu sua inocência
Extirpada por mãos de ferro
E jugo funesto.
Confesso:
— Doeu demais!
Havia dias insuportáveis
Onde meus pé[cados]
E pedaços de mim
Acumularam-se pelo caminho.
Carreguei meu fardo
A cruz do meu calvário
Sob a chuva da tristeza
Dialoguei com a morte
Sepultei os meus mortos
E de outros também.
Porém o maior enterro
Fora o do meu coração
Prestei condolências
No meu próprio funeral.
Lágrimas caíram
Minha alma partia-se em cacos
O caos governava
Minha coroa-auréola
Caiu enferrujada e sem tempo,
Cicatrizes ganhavam cores e formas
Na carne, no ser e na mente,
Tornaram-se um mapa da dor.
Perdi-me de mim na trajetória
Na loucura não sabia mais
Se eu era anjo ou humano
Escolhi ser gente, pessoa,
Um vulgar ordinário
Deixei a santidade
A cargo dos Santos.
Conversando com meus fantasmas,
Diante do abismo,
Tornei-me colecionador de feridas
Guardando-as na pele
E na parte subjetiva mais intrínseca.
Todavia, num dado momento
Após a derradeira súplica
Sacudi a poeira
Dei mais um passo
Ensanguentado e dolorido
Dando as costas ao abismo.
Achei o caminho inverso
E uma flor de bálsamo
Refiz minhas asas
Sob a sombra do relógio
Soprou a brisa da alma
Fora me dado a santa remissão
Deus estendeu a sua misericórdia
Numa alfombra amenizando as pedras
Então, apoiado nos sonhos, na fé,
E na beleza dos dias de infinito azul
Simplesmente segui,
Pois o incrível em ser humano é
Que todo aquele que crê
Tem a capacidade
De se reconstruir
A partir do luto e do pó.
E mais uma vez coroar-se
Rei de si e filho do Pai.

POESIA - SUSSURROS SÍSMICOS - THIAGO LUCARINI

Nunca havia passado por isso
Até escutar a sua voz, este som de alma
Que abalou minha desleal estrutura.
Sua voz me desmonta inteiramente
Derrete meus ossos feito manteiga
Arrepia-me feito calor de boa promessa.
Poderia escutar-te eternamente
Devaneando sobre amores puros
E atos completamente indecentes
Envoltos em sísmicos sussurros.
Sua voz é martelo sobre minhas barreiras
É chamado à perdição da minha sanidade
É chave para eu deixar toda a minha dignidade
E ser uma feliz poça de prazer aos seus pés.

POESIA - REVOGANDO A SOLIDÃO - THIAGO LUCARINI

Maior pecado mortal
Cometi contra o amor
O ignorei por tempo demais.
Fiz-me em silêncio para não ouvir
Fechei os olhos para não ver
Enterrei meu coração sem seu aval
Neguei-me o dom de sentir.
Consequência: megera solidão.
Hoje revogo tudo o que fiz antes,
Perdoe-me, por favor, perdoe-me.
Então, querido amor verdadeiro
Vamos fazer um acordo:
Cedo o meu coração para habitá-lo
E em troca desejo toda a felicidade
Que puder me conceder.

POESIA - EU TE AMO - THIAGO LUCARINI

I - Avistamento

Eu te amo
E será para toda a vida.
Amei-te assim que te vi
Solene, pura, encantada
Vestida de alva da manhã.
Como inundava o mundo de beleza
Tinhas um sorriso limpo e livre de amarras
Decidi, naquele instante, que seria minha amada.

II – Promessa

Eu te amo e nada irá mudar isso
O tempo, o vento ou a morte.
Nenhum deles detém poder sobre meu amor
Por isso, não te preocupes, mesmo que eu
Não seja mais o eu de hoje
Asseguro-te fielmente, que
O eu do futuro também te amará,
Pois maior dádiva dentre os homens não há.

III – Aliança

Eu te amo, portanto, case-se comigo
Tenhamos filhos, um monte de filhos
Frutos sublimes e perfeitos deste amor
Inviolável, sacro e durável.
Meu coração fraco falta explodir quando te vejo,
Assim, faceira, como se a vida
Fosse uma eterna e doce brincadeira.

IV – Devoção

Eu te amo e a folha da poesia está acabando
Nenhuma lírica pode te descrever perfeitamente,
Pois tu és a maior das poesias mundanas e celestiais
Catarse a este poeta inebriado.
Eu te amo amada minha, mais que tudo
Mais que a estrelas, mais que o sol
Mais que a lua, mais que minha própria alma.
Perdoe-me Deus, mas deixo aqui
Subentendido meu querer-maior e pleno.
Como És amor, sei que me entenderás.
Eu te amo irrevogavelmente, incondicionalmente
Eu te amo, por enquanto e para todo o sempre.

POESIA - FUSÃO NUCLEAR - THIAGO LUCARINI

Assim que tocou
Minha pele inflamável 
Fiquei todo arrepiado
Uma corrente elétrica
Percorreu todo meu corpo
Como se eu fosse nuvem indecente
Indo às profundezas desconhecidas
Do insubstancial da minha alma
Despertando um sol-sorriso faceiro.
Desde então sigo transbordante da energia
Que o seu toque despretensioso me deu.
Cheio de pensamentos de boa safadeza
Consigo plenamente imaginar
A fusão nuclear que será
A primeira vez que nos amarmos
E assim, juntos, daremos à luz
A um novo sol entre os homens.

POESIA - AMOR É CUIDADO - THIAGO LUCARINI

Amor é dar colo,
Pouso, abrigo.
É fazer do outro 
Silenciosa oração
Almejando bem maior
Morada mais alta.
É esperar afago,
Carinho, abraço,
Um beijo roubado.
Adubo certo 
Para crescer.
Feito flor no jardim
É a sutileza do amparo que favorece
Beleza e perfume, estabilidade.
O abuso só gera defesa
Mais espinhos e feridas,
Pétalas e lágrimas caídas.
Amor é cuidado, sempre.

POESIA - FACETAS AZUIS - THIAGO LUCARINI

Tenho eu
Chamas azuis
Queimando solidão 
Dentro do peito.
Soltando densa fumaça 
Embaçando minha visão.
Arde feito um pedaço 
Do inferno dentro da carne.
Cansado de toda dor 
Fruto da lenha da inércia
Resolvi mudar
Dar outro sentido 
Ao fogo frio em mim.
Restam algumas facetas azuis 
Porém gradativamente
Vou ganhando novas cores
E um calor mais aconchegante .
Devagarzinho vou ressignificando
O inferno em Paraíso.

CRÔNICA - A IMAGEM E SEMELHANÇA - THIAGO LUCARINI


O que me define, por vezes, é a mente coletiva ofensiva. Somos feitos a imagem e semelhança do outro 'melhor' sem ser. Adequações de padrões, de comportamentos, de formas, de fôrmas, do sorriso, da cor, de tudo o que gera individualidade e originalidade. Como ser feliz comigo mesmo sendo baixo, gordo, careca, pobre, negro, mulher, brasileiro. Por que eu deveria ser feliz sem todos os atributos de perfeição que me são diariamente expostos? Como não querer a vida de glória e beleza que tantos estampam nas cordas dos dias? Devo, obviamente, mascarar minha dor de dente, minha cabeça latejante, minhas costas doloridas, meus pés cansadas, minha fadiga de sustentar inverdades, uma vez que, qualquer deslize de fraqueza é pecado capital. Ignoro minha imagem única e busco muletas para amparar meu descontentamento e falta de humor nesta jornada de dissociar o que sou para assimilar algo que não me corresponde nem me faz feliz. Manter a felicidade artificial é um processo mutilador e torturante. Existem quantos sorrisos plásticos por aí que são feridas imaculadamente e assepticamente  abertas? Quantos corpos definham sua verdade em agonia? Feito eu a imagem e semelhança de tantos, fico diluído, sou nada, provido de uma identidade inferiorizada que não tem eco algum dentro de mim. Oco, tento em vão preencher o meu vazio com tantos outros igualmente vazios, e assim, perecemos, pois nunca seremos capazes de fornecer completude um ao outro.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

POESIA - O TOM DA PALAVRA - THIAGO LUCARINI

A palavra define meu tom
Todas as nuances do que sou.
Palavra me é carne, sangue e coração
É a fé da minha alma pouco pragmática
Contida em lágrimas, sorrisos e devaneios.
É nome do amor, verbo, substantivo
É significado dócil, porém exagerado
É matéria, adubo e decomposição.
Posso por ela ser poesia ou sina 
Mutável condição do existir
Conjugado em períodos de tempo
Num entendimento subjetivo, empírico
E absolutamente humano feito do dito.

POESIA - AGULHAS E AÇÚCARES - THIAGO LUCARINI

Nas agulhas do tempo
Fui desfazendo-me
Grão por grão
Do meu singelo açúcar,
Fui deixando de ser palatável,
Agradável ao social comum.
Azedei-me, pois perdi
Todo o refinamento,
Toda a branquitude cristalina
De um algo processado 
A favor de outros gostos.
Ao ruir de toda doçura imposta 
Descobri-me em mim, sincero.
Boa cana dura e resistente ao corte.
Longe das línguas das agulhas do tempo
Guardo, ainda, um pouco 
De bom açúcar, mas este é poético,
E sirvo tão somente aos diletos.